sábado, 1 de junho de 2013
E ele disse que isso era lindo
Eu queria o impossível. Fazer daquelas cores, daquela luminosidade contente, um quadro em letras. Frases douradas. Queria mostrar a cristalinidade daquele rio, seus habitantes vivos, suas margens preenchidas de árvores lindas. Queria capturar aquele ar magnetizado de forma tão suave, aquela alegria em visão abençoada. Se eu soubesse escrever poesia... ousaria e usaria aquelas palavras que remetem a sentimentos. Eu tento aqui uma descrição. Mas eu queria mais. Queria um mergulho, como quem é tocado no impulso de um poema e na imaginação de um relato honesto. Deixo aqui então essa intensão. A verdade é que foi lindo. Um sonho que não sei se sonhei. Era uma experiência. O fato de eu estar dormindo não diminui em nada sua realidade. Aquilo aconteceu. Eu estava num barco. O rio era perfeitamente calmo, vivo e transparente. As folhas das árvores eram vida gotejante. O ar abrigava uma mistura de luminescência, coloridos e contentamento. Eu circundava uma vegetação, um morro, uma ilha. Um rio sinuoso circundando uma dimensão. Em volta dessa dimensão eu estava percebendo uma magia transbordante. Era como se o mundo estivesse feliz em estar comigo. Como se habitasse em mim uma consciência que se refletia em tudo isso que eu via e experimentava. Eu não diria que isso era bom. Eu diria que era lindo.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Iunes - uma vivência numa palestra de arte-terapia. ( ou: Boas histórias sempre contam mais do que quem as escreve)
A história começara. A sonoplastia dos ouvintes ajudava a compor o ambiente. Isso havia sido combinado previamente. Tudo muito simples. Instrumentos que reagem ao passar do ar. Sinos, carrilhões e o próprio som do vento produzido pela boca a soprar. Uma flauta introduzindo as primeiras notas num estilo meditativo. Sons convidando ao estado de introspecção, de atenção, de relaxamento. Rapidamente a esfera psico-acústica de fechava à volta dos participantes.
A história utilizaria os velhos e bons elementos da jornada do herói. O menino que quer ajudar sua aldeia, que planeja sua vida, que vence desafios, que chega a pontos de decisão e virada, que encontra um mentor, que recebe uma tarefa que ele não entende, que sofre transformações, que entende e aceita sua tarefa interior, que não entende sua tarefa e desiste e vai embora até encontrar algo que lhe dê um sentido, e que finalmente retorna ao seu lugar de direito. Todos esses elementos estão na história. Mas essa história estava inserida numa proposta, a de averiguar o sentido da vida.
O protagonista resolve ajudar sua aldeia e, sabendo da existência de sábios que habitavam um mosteiro perto, decide se tornar monge. Ele iria adquirir seu conhecimento para ajudar sua gente. Assim, o jovem chega ao mosteiro e é recebido pelo monge administrador. Homem grande, forte, viril, apreciador de boa comida, alegre, falador. Fisicamente, o monge administrador faz contraste com o monge chefe, magro, frágil, absolutamente quieto e cego. O arquétipo do cego salta aos olhos. O monge cego enxerga o que os olhos físicos não vêem. O jovem é testado. Ele passa um dia fora do mosteiro esperando o portão se abrir. Depois passa outro dia dentro do mosteiro num pátio aberto. Sua determinação é testada. Então ele deve esperar o monge chefe e, se este nada lhe falar ele pode ficar. Se ele perguntasse qualquer coisa, algo como "posso ficar, mestre?" , ele teria fracassado no teste, pois o mestre teria respondido: "não" . O monge administrador tinha em mente um método específico para este jovem. Ele teria que ser absolutamente determinado e possuir fé, confiança.
Como abordar um homem que procura o caminho espiritual porque está insatisfeito com a vida-do-dia-a-dia? Para aquele jovem ,a abordagem seria simplesmente mandá-lo varrer o chão sujo de areia que o vento trazia incessantemente naquele pátio aberto dentro do mosteiro. Isso seria suficiente. O jovem assim o faria por um ano. Sempre pensando nos livros que existiriam na biblioteca e no conhecimento ali contido. Ele almejava aprender como melhorar a vida de seu povo. Durante um ano ele varreu o pátio dia e noite, várias vezes. Ele varria um canto enquanto em outro a areia novamente se acumulava. Fez isso até desistir. Resolveu ir embora pois não havia aprendido nada que queria. Como queremos aprender algo que não sabemos e acreditamos saber o que devemos aprender! Mas, para seu projeto, aquilo parecia apenas perda de tempo. Ele mal acabara de ter esses pensamentos quando percebeu que o vento, seu companheiro por todo aquele ano, fazia um som.
O vento cantava.
Esta descoberta fora uma primeira transformação. A vida não se dobra aos caprichos da vida-do-dia-a-dia. Mas o que brotou ali não fora essa consciência, mas a de que há uma vida, uma vida que independe de nossa vida diária. Essa vida é um fluxo indomável, livre. Ela vai onde quer e quando quer. Faz o caminho que quer. Durante um ano isso estava ali. Mas somente quando ele dá espaço, quando ele para de pensar em seu projeto, nos livros que poderia ler, é que ele ouve o som dessa vida, desse vento.
E isso é um nascimento.
Um primeiro respirar para além de sua vida planejada. Ele respira pela primeira vez na espontaneidade da vida mesma. E ele começa a cantar. Sua canção vem da mesma fonte que é a liberdade de ventar. E ao tocar essa fonte, surge o som, a canção, a vida em atrito suave com o mundo. A vida penetrando seu coração.
Por um momento ele esquecera seu projeto, sua vida-do-dia-a-dia, e ele cantava. Assim ele o fez por mais dez anos. Ele varria e cantava em harmonia com a som do vento, dia e noite, varias vezes. Sua música era fruto de seu contentamento. Não era alegria, oposto da tristeza. A vida nada sabe dessas expressões humanas. A vida é contente. Um contentamento sem motivo que a explique. Ele estava imerso nisso, crescendo nesse útero, agindo ele mesmo como vento.
Ele cantava e dançava no pátio. Havia transformado o pátio num templo. Seus movimentos eram oração. Sua música, um agradecimento. Ele assim o fazia, mas não sabia que fazia!
Dez anos depois ele resolve ir embora. Ele olha seu antigo projeto e percebe que nada possui para realizá-lo. Os monges apenas sorriem e lhe garantem portas abertas. Como é fácil não se perceber a própria luz quando se é por demais iluminado!
O jovem, agora um monge adulto, segue o caminho de sua antiga aldeia e encontra um aldeão de um povoado vizinho ao seu. Este homem está cantando. Ele conta que dez anos antes alguém ouvira uma bela canção trazida pelo vento, vindo da direção do antigo mosteiro. Esse homem, tocado pela canção havia se inspirado e começado também a cantar. Retornando a sua aldeia ele inspirara outros e isso fora passando de vizinho a vizinho, por fim de aldeia a aldeia. Por isso ele cantava. A vida-do-dia-a-dia ainda era a mesma, com suas dificuldades e tristezas, mas eles haviam sido tocados e inspirados por algo além. Assim ele cantava.
O monge tem sua segunda transformação. A consciência do que lhe ocorrera dez anos antes surge. Qual o sentido em se identificar com uma vida circunstancial e deixar passar a vida mesma que flui em todos e através de todos? O projeto de melhorar as circunstâncias de vida não deveria encobrir a vida mesma.
O monge retorna e passa o resto de seus dias cantando em seu templo aéreo, brincando com a a areia que o vento traz, cantando com ele suas músicas fluidas. Ao final de sua vida as aldeias disputariam a origem de seu monge inspirador.
A vida é mestra em se esconder a vista de todos.
Louva-se o músico e o instrumento. Esquece-se que foi a música que atravessou a ambos. O que importa onde o monge cantor nasceu? O que importa quem cantou? Qual o sentido da vida? O monge chefe, cego, está te vendo. Espere aqui neste pátio. Se ele chegar e nada te dizer, então você pode ficar.
A história utilizaria os velhos e bons elementos da jornada do herói. O menino que quer ajudar sua aldeia, que planeja sua vida, que vence desafios, que chega a pontos de decisão e virada, que encontra um mentor, que recebe uma tarefa que ele não entende, que sofre transformações, que entende e aceita sua tarefa interior, que não entende sua tarefa e desiste e vai embora até encontrar algo que lhe dê um sentido, e que finalmente retorna ao seu lugar de direito. Todos esses elementos estão na história. Mas essa história estava inserida numa proposta, a de averiguar o sentido da vida.
O protagonista resolve ajudar sua aldeia e, sabendo da existência de sábios que habitavam um mosteiro perto, decide se tornar monge. Ele iria adquirir seu conhecimento para ajudar sua gente. Assim, o jovem chega ao mosteiro e é recebido pelo monge administrador. Homem grande, forte, viril, apreciador de boa comida, alegre, falador. Fisicamente, o monge administrador faz contraste com o monge chefe, magro, frágil, absolutamente quieto e cego. O arquétipo do cego salta aos olhos. O monge cego enxerga o que os olhos físicos não vêem. O jovem é testado. Ele passa um dia fora do mosteiro esperando o portão se abrir. Depois passa outro dia dentro do mosteiro num pátio aberto. Sua determinação é testada. Então ele deve esperar o monge chefe e, se este nada lhe falar ele pode ficar. Se ele perguntasse qualquer coisa, algo como "posso ficar, mestre?" , ele teria fracassado no teste, pois o mestre teria respondido: "não" . O monge administrador tinha em mente um método específico para este jovem. Ele teria que ser absolutamente determinado e possuir fé, confiança.
Como abordar um homem que procura o caminho espiritual porque está insatisfeito com a vida-do-dia-a-dia? Para aquele jovem ,a abordagem seria simplesmente mandá-lo varrer o chão sujo de areia que o vento trazia incessantemente naquele pátio aberto dentro do mosteiro. Isso seria suficiente. O jovem assim o faria por um ano. Sempre pensando nos livros que existiriam na biblioteca e no conhecimento ali contido. Ele almejava aprender como melhorar a vida de seu povo. Durante um ano ele varreu o pátio dia e noite, várias vezes. Ele varria um canto enquanto em outro a areia novamente se acumulava. Fez isso até desistir. Resolveu ir embora pois não havia aprendido nada que queria. Como queremos aprender algo que não sabemos e acreditamos saber o que devemos aprender! Mas, para seu projeto, aquilo parecia apenas perda de tempo. Ele mal acabara de ter esses pensamentos quando percebeu que o vento, seu companheiro por todo aquele ano, fazia um som.
O vento cantava.
Esta descoberta fora uma primeira transformação. A vida não se dobra aos caprichos da vida-do-dia-a-dia. Mas o que brotou ali não fora essa consciência, mas a de que há uma vida, uma vida que independe de nossa vida diária. Essa vida é um fluxo indomável, livre. Ela vai onde quer e quando quer. Faz o caminho que quer. Durante um ano isso estava ali. Mas somente quando ele dá espaço, quando ele para de pensar em seu projeto, nos livros que poderia ler, é que ele ouve o som dessa vida, desse vento.
E isso é um nascimento.
Um primeiro respirar para além de sua vida planejada. Ele respira pela primeira vez na espontaneidade da vida mesma. E ele começa a cantar. Sua canção vem da mesma fonte que é a liberdade de ventar. E ao tocar essa fonte, surge o som, a canção, a vida em atrito suave com o mundo. A vida penetrando seu coração.
Por um momento ele esquecera seu projeto, sua vida-do-dia-a-dia, e ele cantava. Assim ele o fez por mais dez anos. Ele varria e cantava em harmonia com a som do vento, dia e noite, varias vezes. Sua música era fruto de seu contentamento. Não era alegria, oposto da tristeza. A vida nada sabe dessas expressões humanas. A vida é contente. Um contentamento sem motivo que a explique. Ele estava imerso nisso, crescendo nesse útero, agindo ele mesmo como vento.
Ele cantava e dançava no pátio. Havia transformado o pátio num templo. Seus movimentos eram oração. Sua música, um agradecimento. Ele assim o fazia, mas não sabia que fazia!
Dez anos depois ele resolve ir embora. Ele olha seu antigo projeto e percebe que nada possui para realizá-lo. Os monges apenas sorriem e lhe garantem portas abertas. Como é fácil não se perceber a própria luz quando se é por demais iluminado!
O jovem, agora um monge adulto, segue o caminho de sua antiga aldeia e encontra um aldeão de um povoado vizinho ao seu. Este homem está cantando. Ele conta que dez anos antes alguém ouvira uma bela canção trazida pelo vento, vindo da direção do antigo mosteiro. Esse homem, tocado pela canção havia se inspirado e começado também a cantar. Retornando a sua aldeia ele inspirara outros e isso fora passando de vizinho a vizinho, por fim de aldeia a aldeia. Por isso ele cantava. A vida-do-dia-a-dia ainda era a mesma, com suas dificuldades e tristezas, mas eles haviam sido tocados e inspirados por algo além. Assim ele cantava.
O monge tem sua segunda transformação. A consciência do que lhe ocorrera dez anos antes surge. Qual o sentido em se identificar com uma vida circunstancial e deixar passar a vida mesma que flui em todos e através de todos? O projeto de melhorar as circunstâncias de vida não deveria encobrir a vida mesma.
O monge retorna e passa o resto de seus dias cantando em seu templo aéreo, brincando com a a areia que o vento traz, cantando com ele suas músicas fluidas. Ao final de sua vida as aldeias disputariam a origem de seu monge inspirador.
A vida é mestra em se esconder a vista de todos.
Louva-se o músico e o instrumento. Esquece-se que foi a música que atravessou a ambos. O que importa onde o monge cantor nasceu? O que importa quem cantou? Qual o sentido da vida? O monge chefe, cego, está te vendo. Espere aqui neste pátio. Se ele chegar e nada te dizer, então você pode ficar.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Corra! Ou: O despertador quebrado. Ou: fechando o cerco.
Não é o tempo todo. Mas é muito de cada tempo. Basta estar longe o suficiente dos livros, dos filmes, dos jogos, das lojas. Basta estar sentado em um ambiente escutando algo que se poderia desconstruir exaustivamente. Você poderia colocar a frase inicial em xeque com relação a várias outras frases. Poderia mostrar falácias, preconceitos e o esquecimento de premissas anteriores. Poderia mostrar o uso inconsciente de recursos miraculosos... mas e daí?
Tudo isso, toda essa maneira de falar, discursar, pensar, não te trouxe exatamente aqui, a esta consciência que compra, joga, assiste, lê, e o faz simplesmente para fugir? E que fuga mal feita! Pois estar consigo mesmo é inevitável quando se chegou ao fim das horas, meu caro!
Mas como você disse, basta um detalhe de rearrumação do ambiente, uma situação em que o espelho finalmente fique diante de sua face. Você estava ali, novamente num desses momentos, numa dessas situações, e a décima segunda hora se mostrava cristalina, bela, corajosa.
Mas você tirou os sapatos, estalou os dedos, arrumou a armação dos óculos. Posso refazer sua cena em detalhes: você olha para o lado, para o céu, pra a lâmpada, para a vela, para o teto, para o chão, para si mesmo olhando tudo isso, para mim nesse pretenso futuro (ou será passado?) te olhando enquanto escrevo! Que vontade de levantar, de correr, de gritar, de chorar, de tomar banho, de socar algo, de dormir profundamente.
Essa é a beleza dos despertadores temporais. Eu programei um destes para dias como esse, dias de cansaço, dias de derrota. Mas eu deveria ter usado a música que me vem agora, e o despertador então teria dito:
"você ainda está dormindo! Eu sei que você irá me quebrar, mais uma vez. Eu sei, porque o seu mingau ainda está quente na mamadeira! Palhaço! Verme! Anda, desta vez estou escondido e você terá trabalho para me quebrar! Se você demorar a me encontrar, eu terei, enfim, acabado com sua imortalidade! Ah! Você não sabe, em sua estupidez, se venho de seu futuro ou passado?! Isso faz diferença? Isso existe? Anda, pois estou fechando o cerco...ou melhor: corra! Corra! Corra!"
Tudo isso, toda essa maneira de falar, discursar, pensar, não te trouxe exatamente aqui, a esta consciência que compra, joga, assiste, lê, e o faz simplesmente para fugir? E que fuga mal feita! Pois estar consigo mesmo é inevitável quando se chegou ao fim das horas, meu caro!
Mas como você disse, basta um detalhe de rearrumação do ambiente, uma situação em que o espelho finalmente fique diante de sua face. Você estava ali, novamente num desses momentos, numa dessas situações, e a décima segunda hora se mostrava cristalina, bela, corajosa.
Mas você tirou os sapatos, estalou os dedos, arrumou a armação dos óculos. Posso refazer sua cena em detalhes: você olha para o lado, para o céu, pra a lâmpada, para a vela, para o teto, para o chão, para si mesmo olhando tudo isso, para mim nesse pretenso futuro (ou será passado?) te olhando enquanto escrevo! Que vontade de levantar, de correr, de gritar, de chorar, de tomar banho, de socar algo, de dormir profundamente.
Essa é a beleza dos despertadores temporais. Eu programei um destes para dias como esse, dias de cansaço, dias de derrota. Mas eu deveria ter usado a música que me vem agora, e o despertador então teria dito:
"você ainda está dormindo! Eu sei que você irá me quebrar, mais uma vez. Eu sei, porque o seu mingau ainda está quente na mamadeira! Palhaço! Verme! Anda, desta vez estou escondido e você terá trabalho para me quebrar! Se você demorar a me encontrar, eu terei, enfim, acabado com sua imortalidade! Ah! Você não sabe, em sua estupidez, se venho de seu futuro ou passado?! Isso faz diferença? Isso existe? Anda, pois estou fechando o cerco...ou melhor: corra! Corra! Corra!"
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
O Fim do Mundo
Aqui está. Não pense que eu estava brincando, te assustando. Realmente aqui está. Mas quem irá perceber este momento menor que qualquer medida de momentos?
Mas uma vez o Fim do Mundo passará despercebido.
Mesmo com tantos corações desejando ou temendo, com tantas preparações, mesmo assim o Fim do Mundo passará despercebido.
Veja os maias, esse povo que simplesmente deixou de existir. Podem falar de uma grande seca, de uma epidemia veloz. Falem do que quiserem, o fato é que nós, os que aqui estamos, encontramos apenas ruínas. Amontoamos pedaços de hieroglifos, montamos um quebra-cabeça temporal, supomos os inícios e fins, circunscrevemos eras, especulamos sobre indícios...
O Fim do Mundo não pode ser medido com relógio, está além de qualquer detecção. É tão fluido que se dissolve em cada segundo de todo o tempo do mundo. É tão penetrante que nenhuma parte de qualquer segundo é pequeno o suficiente para mostrá-lo. Sim, o mundo não é pequeno o suficiente, nenhuma parte sua é.
Ainda assim, aqui está.
As oito horas e cinco minutos da noite, de qualquer lugar que se esteja, olhe para o céu. Então, olhe para as estrelas e feche os olhos. Então saiba. Saiba com todo seu corpo que o Fim do Mundo aqui está.
Continue vendo as estrelas, ainda de olhos fechados... e veja todos os mundos com todas suas estrelas... bilhões e bilhões de estrelas. Agora, bem devagar, abra os olhos. Abra os olhos e saiba. Saiba profundamente: o Fim do Mundo, despercebido, aqui está.
Em algum lugar, seja qual for, nessa imensidão que você acabou de imaginar, a primeira estrela acaba de se apagar.
Mas uma vez o Fim do Mundo passará despercebido.
Mesmo com tantos corações desejando ou temendo, com tantas preparações, mesmo assim o Fim do Mundo passará despercebido.
Veja os maias, esse povo que simplesmente deixou de existir. Podem falar de uma grande seca, de uma epidemia veloz. Falem do que quiserem, o fato é que nós, os que aqui estamos, encontramos apenas ruínas. Amontoamos pedaços de hieroglifos, montamos um quebra-cabeça temporal, supomos os inícios e fins, circunscrevemos eras, especulamos sobre indícios...
O Fim do Mundo não pode ser medido com relógio, está além de qualquer detecção. É tão fluido que se dissolve em cada segundo de todo o tempo do mundo. É tão penetrante que nenhuma parte de qualquer segundo é pequeno o suficiente para mostrá-lo. Sim, o mundo não é pequeno o suficiente, nenhuma parte sua é.
Ainda assim, aqui está.
As oito horas e cinco minutos da noite, de qualquer lugar que se esteja, olhe para o céu. Então, olhe para as estrelas e feche os olhos. Então saiba. Saiba com todo seu corpo que o Fim do Mundo aqui está.
Continue vendo as estrelas, ainda de olhos fechados... e veja todos os mundos com todas suas estrelas... bilhões e bilhões de estrelas. Agora, bem devagar, abra os olhos. Abra os olhos e saiba. Saiba profundamente: o Fim do Mundo, despercebido, aqui está.
Em algum lugar, seja qual for, nessa imensidão que você acabou de imaginar, a primeira estrela acaba de se apagar.
Para Catarina
domingo, 25 de novembro de 2012
Lagrimas salgadas não devem ser bebidas, ou: a cor do céu ressalta apenas o que é comum
Um choro. Claro, tudo começa com um choro. Como um nascimento, como entrar num território hostil. Você deveria ter percebido... sua voz que te parecia muda, seu coração quase saindo da boca, os sinais tolos de quem está na sendo fisgado por um pensamento, por uma idéia, por uma semente. E nenhuma semente é inocente. Ela cresce e quando você se dá conta, João, há um gigante em sua cola. E você sabe, ou deveria saber: nunca deixe a semente se molhar. Mas como não ser hipnotizado por quele choro, cujas lágrimas sorrateiramente molham a semente que você deixou aparecer? Tolo. Alguns choros são feitos de uma astúcia insuperável, igual a uma uma mentira perfeita: aquela que não se sabe mentira. Foi assim que você, João, se deixou levar pela fantasia evocada durante o sussurrante choro da princesa. Ninguém escreveu nenhum roteiro, nem escalou os personagens. Esse é o tipo de história que se encena como se não o fizéssemos. Estamos tão colados a nossas máscaras e roupas e falas e entonações que ninguém nos chamaria de fanfarrões. Somos naturais. Dizemos até que a natureza, com seus hormônios, suas cores, seus perfumes, nos incita a agir assim. Será que, em algum momento, alguém também dirá que a natureza pensa? Mas eu estava contando como tudo começou, e o começo foi tão clichê quanto qualquer outro. É claro que você, João se apaixonou. Claro que a princesa, sendo nobre, precisaria manter sua distância sanguínea. Ela determinaria o andamento das cenas, a iluminação, o ângulo das câmeras, as falas apropriadas e, como não poderia deixar de ser, seria a estrela da peça com seu lindo camarim. Agora sim, agora não. Agora aqui, agora ali. Hoje não posso, amanhã... talvez. Agora eu quero, mas isso não significa que eu faça exatamente agora. João, ah João! Agora você teria que molhar outra semente, e com seu próprio sangue, para descer desse pé gigante em que se meteu... Você ainda não entendeu? Olhe nos olhos do gigante e compare com os da princesa! A mente produz todo tipo de jogos e há sempre um tirano dando as cartas, ditando as regras! João, nunca molhe suas sementes em águas alheias! No máximo, se você quiser se arriscar, misture uma água outra a sua mesma e faça crescer uma semente compartilhada, como uma jornada dupla reconhecível pelas palavras no caminho, palavras ditas de coração a coração. Isso, se você tiver essa índole pelo risco. Dizem que é o caminho mais belo, apesar de tudo. Dizem que vale a pena. Então João, não se deixe enganar novamente! Princesas são invenções ordinárias. Me mostre alguém que não seja especial e eu te direi: esta é uma em um milhão! Estenda a mão! Não a perca de vista! Procure uma Maria, uma Joana como você, sem sobrenome algum, sem nenhuma referência, brasão, importância. Você sabe... você sabe que matar o gigante é mais fácil que dizer adeus à princesa. Não acredite que ela esteja em perigo, pois é você quem está a beira deste precipício! Vamos, não é difícil. Ande um pouco. Respire mais fundo. Olhe atentamente. Não se engane pelas cores fortes, pelos cortes precisos, pelo perfume adocicado. Continue olhando. Permaneça atento. Vê como essas cores se repetem? Vê como esses gestos são cuidadosamente ensaiados? Agora você percebe o padrão? Pois olhe novamente. Ali está: Maria. Ela se sente deslocada. Ela usa sapatos baixos, parece que não treinou suficiente o remexer os cabelos. Ela tem um sorriso de quem se sente fora do ninho e a espontaneidade de uma criança adorável. Vê como ela fica linda sem fazer esforço e quando faz, nunca é tão linda como se não o fizesse? Ela pode ter olhos negros ou castanhos, não importa; acontece que, como que por mágica, o azul sempre ressalta a cor desses olhos! Você até diria que isso é algo especial nela, mas não se engane! Maria é absurdamente comum, sem ser ordinária. Não adianta você dizer que são sinônimos. Maria nunca treinou para nada e ela nem sabe que estamos falando dela. Mantenha-se atento e nunca a perca de vista. Afaste-se dessas princesas que são ótimas em uma coisa ou outra. Todas elas podem ser pagas pelos seus dotes. Maria tem algo que nenhum dinheiro compra. O olhar de Maria é impagável. Você acha que estou sendo romântico? Pois eu vi seu futuro João, escutei seus gritos apavorados fugindo do gigante e te digo: é Maria quem te acorda dos pesadelos, é sua mão que aquece seu peito, é o som de seu coração e sua voz que apaziguam sua angústia. É Maria, pequeno herói inventado de si mesmo. É Maria, sem corôa ou tiara, sem cetro nem manto. Vê ela ali no meio de toda essa gente importante? Se você não tiver o suspiro suspenso por esse olhar sem jeito, então você não é João! Dane-se você com suas princesas e gigantes pesados! Vamos João, olhe... olhe atentamente. Isso! Sim, eu sei... Respire. Isso...respire. Incrível, não? Me diga que não é mágica?! Como pode esse azul ressaltar a cor de seus olhos castanhos, não é mesmo?
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Mulher Gato ;ou: Aquele que possui um passado, perde o futuro; ou: Veja, Cristiano: Batman ressurge com espírito!
Refleti sobre os elementos, os personagens, suas conexões, enquanto ia para casa num ônibus lotado. O motorista freava e arrancava como se transportasse animais de abate. O ar era pegajoso. Os espaços eram preenchidos com asco. La fora uma variedade de luzes de sinais, faróis e letreiros, refletiam nas janelas, criando uma sensação de um sonho angustiante. Era como se não fosse possível ver realmente lá fora. Era óbvio que o ônibus andava, mas a sensação era de aprisionamento. Não havia brisa, tudo era velho. Como o conteúdo de um comprimido atravessando os intestinos da cidade, o conteúdo do ônibus apenas esperava a hora de fazer sinal e pular fora dali. O trânsito testa sua capacidade de exercer sua vontade, pensei. Pulei do ônibus. Respirei. Olhei o céu já anoitecendo. Então isto veio a tona. Não sei se há um início exato. Por isso não pretendo realizar uma narrativa. O que acontece aqui é como uma explosão. Como você irá ler isso, este texto tridimensional, eu não sei. Também não sei como irei escrevê-lo.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
conhecimento
O conhecimento de primeira mão é uma experiência. Saber o que é um choque significa experimentar um choque. A descrição de um choque não é e não substitui o conhecimento de primeira mão do choque. Conhecer a descrição nunca é conhecer o que é descrito. E mesmo quem possui a experiência do choque não é capaz de descrevê-lo como ele é. A experiência é indescritível.
A consciência capaz de descrever qualquer coisa não é a mesma que experimenta. Essa consciência que descreve o faz de segunda mão, coletando impressões, buscando palavras-pensamentos que produzam sentido lógico, ou gestos que também produzam sentido. A consciência descritiva narra uma história. Mas uma história bem contada, e é assim que se produz uma boa história, bem-contando, deve nos fazer querer vivê-la, experimentá-la.
Eu defendo que Julio Verne foi a lua. Digo isso porque sei da limitação de nossas experiências viáveis e da ilimitada capacidade de imaginá-las.
Será que em algum movimento da consciência, imaginação e experiência se tornam indestiguíveis? A imaginação pode se tornar tão poderosa a ponto de produzir experiência, conhecimento de primeira mão?
Assinar:
Postagens (Atom)