Refleti sobre os elementos, os personagens, suas conexões, enquanto ia para casa num ônibus lotado. O motorista freava e arrancava como se transportasse animais de abate. O ar era pegajoso. Os espaços eram preenchidos com asco. La fora uma variedade de luzes de sinais, faróis e letreiros, refletiam nas janelas, criando uma sensação de um sonho angustiante. Era como se não fosse possível ver realmente lá fora. Era óbvio que o ônibus andava, mas a sensação era de aprisionamento. Não havia brisa, tudo era velho. Como o conteúdo de um comprimido atravessando os intestinos da cidade, o conteúdo do ônibus apenas esperava a hora de fazer sinal e pular fora dali. O trânsito testa sua capacidade de exercer sua vontade, pensei. Pulei do ônibus. Respirei. Olhei o céu já anoitecendo. Então isto veio a tona. Não sei se há um início exato. Por isso não pretendo realizar uma narrativa. O que acontece aqui é como uma explosão. Como você irá ler isso, este texto tridimensional, eu não sei. Também não sei como irei escrevê-lo.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
quarta-feira, 4 de julho de 2012
conhecimento
O conhecimento de primeira mão é uma experiência. Saber o que é um choque significa experimentar um choque. A descrição de um choque não é e não substitui o conhecimento de primeira mão do choque. Conhecer a descrição nunca é conhecer o que é descrito. E mesmo quem possui a experiência do choque não é capaz de descrevê-lo como ele é. A experiência é indescritível.
A consciência capaz de descrever qualquer coisa não é a mesma que experimenta. Essa consciência que descreve o faz de segunda mão, coletando impressões, buscando palavras-pensamentos que produzam sentido lógico, ou gestos que também produzam sentido. A consciência descritiva narra uma história. Mas uma história bem contada, e é assim que se produz uma boa história, bem-contando, deve nos fazer querer vivê-la, experimentá-la.
Eu defendo que Julio Verne foi a lua. Digo isso porque sei da limitação de nossas experiências viáveis e da ilimitada capacidade de imaginá-las.
Será que em algum movimento da consciência, imaginação e experiência se tornam indestiguíveis? A imaginação pode se tornar tão poderosa a ponto de produzir experiência, conhecimento de primeira mão?
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Deus não permitiria isso! Ou: Quanto mais devagar meu coração bate, mais rápido o trigre voa.
Estava olhando a formiga carregando a folha. Quando penso nos assuntos esotéricos lembro das formigas e suas folhas. Por mais que uma formiga entendesse meus relatos sobre eclipses lunares, as mudanças das marés e as oscilações nos mercados, esse entendimento nunca se daria por experiência. É assim com os assuntos esotéricos. São relatos dos quais não possuímos nenhuma experiência. Os esotéricos que louvam a chegada da era de aquárius, não percebem que eles não vivem o suficiente para perceber as mudanças que tal era traz. Com certeza uma entidade que vive uns trinta mil anos experimentaria tais mudanças, assim como nós sentimos a mudança entre verão e primavera. Neste ponto sou um crente: acredito nos relatos, mas sei que eles nada podem me dizer. Acredito porque tenho outro tipo de crença: a de que existem entidades que vivem muito mais tempo que nós e que podem se comunicar conosco. Acredito nesta possível comunicação pelo simples prazer de imaginar que há seres humanos especiais e de que, de alguma maneira, eu possa ser especial também. Gosto de pensar que há esta possibilidade oculta: a de que possuo capacidades esotéricas. Mas o meu dia a dia é um constante chamado para o que funciona, para o que sou, para o que tenho. Não há nenhuma entidade milenar conversando comigo e, na verdade, este texto é uma forma de espantá-las. Na verdade, uma forma de dizer a mim mesmo para esquecer qualquer possibilidade de conversa desta natureza. Se ela acontecer, ainda que em sonho, devo descartá-la. Se a formiga parar para me escutar, sua folha apodrecerá antes de eu acabar de lhe contar tudo que tenho para contar, e quando isso acontecer, ela estará morta, e eu terei vivido uma semana apenas. A formiga me lembra que meu coração possui uma quantidade de batidas possíveis, prováveis. Isto me coloca diante de certas questões. Se eu nunca lesse o que escrevo, por exemplo, poderia escrever, no mínimo, o dobro do escreveria se lesse tudo o que escrevo. Eu me leio repetidamente, num constante esforço de entendimento. Meu coração bate em dobro, ao triplo. Mal terminei e já estou me perguntando: então, o que eu disse? Foi assim que escutei aquela conversa sobre aquárius, enquanto via as formigas passeando com suas folhas na beirada do muro. Disse que os assuntos esotéricos são um equívoco de rota, são uma perda de foco. Mas as eras existem! Bradou meu interlocutor. Somente um homem de peixes pode falar da era de aquárius - repliquei. Como isso é complicado de entender! O homem de peixes, aquele que acredita em eras, monta todo um esquema de passagens de eras e diz que tudo se consuma em aquárius, e diz mais: diz que aquárius traz o novo! Como este homem poderia reconhecer isso então?! Isso cheira aos judeus esperando o messias que só pode ser reconhecido pelo que se espera que ele seja e que, portanto, ao vir, nunca é reconhecido. Mas o homem de peixes recebeu este conhecimento dos que viveram em eras anteriores! Argumenta meu interlocutor como se eu não visse o óbvio. O homem de peixes inventa as eras anteriores, as posterior e a sua, filtra tudo por esse modelo e diz que não o faz. Diz que não existe filtro algum. As eras não são um esquema, um modelo, mas a realidade mesma sendo percebida sem filtro algum! O que fazer diante de tal afirmação? Diante de crenças que não se percebem crenças, não há diálogo. Mas se se isto for uma crença, então tudo é muito assustador, isto é muito assustador e você está louco ao dizer isso e me assustar assim! Mas quem é este que se assusta? - lhe pergunto. Não. As eras existem... simplesmente porque... porque Deus não permitiria que não fosse assim! Sim, Deus não permite muita coisa de acordo com a conveniência do dia. Deus, essa válvula de escape quando o peso da folha se torna demasiado. A conta de Deus só aumenta. Que burro de carga! Afinal, minha folha não poderia ser tão pesada. Ele não permitiria! Mas eis que fiz um acordo. Coloquei Deus no meu lado e decidi aliviar nossas cargas. Ele me pareceu feliz. Me confessou que no início eu sentiria muita dor. É que o músculo tenso sofre ao relaxar um pouco apenas. Andei medindo a velocidade de minhas batidas cardíacas. Pareciam mais lentas, como se eu estivesse morrendo. Uma formiga largando a folha antes de chegar no formigueiro. Imagine o que fazer com toda essa energia gasta apenas em levantar algo cem vezes mais pesado que a si mesmo! Em primeiro lugar daria para sair de baixo d'água e respirar uma atmosfera menos densa. Ah! claro, aquárius traz essa atmosfera sutil, quase esqueci. Agora tudo o que disse pode fazer sentido novamente. Deus sendo carregado novamente em seu lombo e os esotéricos aliviados novamente. Por favor, alguém viu minha folha? Não. Para mim não mais. Vou transformar Deus em um lince, um jaguar, melhor, um tigre-quepardo! Sei que aquele filósofo está rindo de mim agora. Háhaha! Era de aquárius? Tente me alcançar!
sexta-feira, 15 de junho de 2012
textos rasgados
A quantidade de textos que não escrevo é muito maior do que os que escrevo.
Parece que estou sempre buscando estes não escritos. Porém, eles se movem, se dobram, se rasgam.
A quantidade de textos rasgados é imensa. Se eu fingir que são aforismos, eles bem que poderiam sê-los.
Verei o que acontece.
Parece que estou sempre buscando estes não escritos. Porém, eles se movem, se dobram, se rasgam.
A quantidade de textos rasgados é imensa. Se eu fingir que são aforismos, eles bem que poderiam sê-los.
Verei o que acontece.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Montségur
Pois todo sagrado é sangrento
Duzentos e poucos, o que sempre é muito, cantaram ante a fogueira. Suas carnes queimando, seus sangue escorrendo e 768 anos de uma imagem que se tornou sagrada, de uma história contada de boca a ouvido que atravessa oceanos.
... sei que nenhuma alma voou como pomba sobre as chamas...
... sei que todo choro e grito foram sufocados pela força da imagem de um canto heróico...
... sei que um ato de poder me atravessa hoje, mais uma vez...
Nunca vi um puro, mas que seja. Que sejam chamados assim, puros, cátaros. Tanto faz. Não importa que tal coisa não exista, nem ao menos seja possível. Perdemos tanto tempo, primeiro com dualidades arbitrárias e depois com explicações e recolocações intermináveis que realmente tanto faz. O tempo necessário para resolver todas as questões da mente é sempre maior do que a vida do cérebro.
...talvez, a mente ou o cérebro se cansem primeiro.
Estou batendo na porta que sei já estar aberta. A madeira já foi acesa. O castelo já foi tomado. Gritos, choros, cantos, risos, aplausos, fugas, xingamentos, imprecações, êxtases. O impacto da cena revolve o redemoinho do tempo e se torna uma entidade: mensagem feita de dor e esperança. Poderosa mensagem que fala de uma outra forma de viver a vida, de uma experiência pela qual vale arriscar tudo, vale perder tudo. Como um puro poderia ser tão ousado? Seria preciso a sujeira sagrada final e fatal para tornar esta mensagem tão penetrante: o próprio sangue em meio a tudo que se é.
Ser herético até o fim é ser herético para sempre.
Essa é a verdade.
Nenhum cátaro voou com sua alma ao lar da Fraternidade da Vida.
Suas almas foram reduzidas às cinzas.
Ainda assim eles vivem,
sem almas,
sem espírito,
sem corpos.
Ainda assim a Fraternidade da Vida
é tocada por eles,
sustentada por eles,
alimentada por eles.
Assim retransmito esta mensagem. Mas não é uma retransmissão apenas da mensagem. Tudo é reeditado. Qual é a forma de viver pela qual vale a pena morrer? Os fanáticos não morrem por isso? Não se mata por isso? Qual a forma de viver pela qual vale a pena arriscar tudo? Para os cátaros essa não era uma questão, nunca foi uma pergunta: é a única forma de viver.
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