sábado, 27 de junho de 2015

Uma nova abordagem para a psique.

É possível uma psique que não esteja nem dentro, nem fora? Uma psique que não seja entendida como consciência, alma, eu ou comportamento? Ou seja, uma psique que seja a vida em ato, vida vivida? Uma pisque não categorizável pelo comportamento observado, por um lado, nem mesmo pela consciência que reflete sobre si mesma, por outro lado, é possível? Podemos pensar uma psique que não seja o esteio para os objetos a sua volta, que não seja uma substância incorpórea nem o resultado de operações químicas? Ou seja, uma psique não pensada? Podemos pensar o não pensado? Que a resposta seja não é apenas o pretexto, necessário, para essa constatação: a psique é algo arbitrariamente presumido, e que, na maioria das vezes, não se dá conta disso. Todas as abordagens da pisque são formas de pensar ou atuações do pensamento humano, que a cria.  A questão que me coloco aqui é: se percebo que tudo que falamos sobre psique é criação do pensamento, há alguma abordagem que não seja mais uma cria do pensamento? Se digo que não, que não há como escapar do pensamento, então me vem a pergunta se ele é reflexivo, se o pensamento é capaz de perceber a "si mesmo", uma percepção que não seja ela mesma mais um pensamento! Mas espere: este "si mesmo" já é, de antemão, um pensamento! É o pensamento que cria o “si mesmo”. Perguntar se o pensamento é capaz de perceber-se a si, é um laço cujo nó é ao mesmo tempo final e início da corda que produz esse mesmo laço. É o pensamento, que diz que existe, que se pergunta se é capaz de se perceber perguntando se existe. Pensar, logo existir, pode significar não que exista algo que pensa, mas que o próprio pensamento pensa, ainda que  desnecessariamente, a si mesmo, que pensar e existir são, portanto, a mesma coisa. Ora, o pensamento, como uma existência, não precisa pensar-se.  Isso não é uma necessidade de operação. O pensamento, como um existir, pode simplesmente pensar, existir. É na reflexão, no laço impossível de uma corda cujo nó é dado simultaneamente pelo início e fim, pelas pontas opostas habitando o mesmo espaço-tempo, que o existir vira ser, que o pensamento é.  Numa operação desnecessária daquilo que simplesmente existe. Ou seja, numa operação isenta de lógica, num reflexo infinito de espelho contra espelho, a existência magicamente, fortuitamente, desvela aquilo que é. Pode a psique apenas ser? A psique como aquilo que é?   Embora esse texto seja uma operação do pensamento, aqui há uma tentativa de criar uma imagem que dele se liberte. Aquilo que é escapa ao pensar? Não respondo, pois ainda é uma pergunta do pensamento. Existir é ser irreal a ponto de pensar-se para além da existência. Mas veja que contradição na linguagem aqui empregada. Existir não é ser coisa alguma! Não sabemos o que é. Aquilo que é nós não sabemos. Existimos, irreais ou reais, simplesmente existimos. Mais: o existir reflete. Então, nessa reflexão, coisas espetaculares acontecem... um táquion desacelera, uma célula imaginal acelera, um nó impossível se faz. Um buraco sem vazio, um salto num abismo sem nada que o sustente, uma renúncia a um exercício de poder, pois o pensamento é poder também... uma renúncia que permite um encontro sem pares, uma vida vivida que não é entendida em termos de existir, pensar.  Uma psique que em sua passagem não deixa pegadas. Será isso o amor?

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