sexta-feira, 1 de agosto de 2014
DNA
Escutei seus devaneios, toda sua mágoa destilada em fantasias do que poderia dizer na ocasião propícia. Até mesmo você é capaz de perceber o quão superficial seriam suas palavras. Seu saltitar entre o re-sentir e a auto comiseração devem estar te cansando, ou não? Sim, até você percebe. Pois me deixe te perguntar, companheiro: quais palavras suas seriam memoráveis? Você sabe, existem homens que escreveram o que permanece por séculos, milênios até. Mesmo que diga que isso é um perdurar, mesmo que exista uma história que permanece por milhões de anos, mesmo que, de alguma forma, uma história adentre nossas células, se torne parte de nossa pequena contribuição humana ao DNA do corpo, o que teria de força nessa suas palavras? Olhar isso, perceber o infinitesimal disso, assim deste modo, é mais, é maior do que se perceber pequeno diante de um céu estrelado. Até os físicos e matemáticos, quando pensam em algo insignificante, imaginam algo com mais quantidade ou qualidade do que essas suas possíveis palavras. E ainda assim só há um maneira eficaz para que você se cale. Admitir, mesmo que lhe seja apenas uma hipótese, que você irá deixar de existir em algum momento. De nada adianta eu lhe dizer que algo que acontecerá, para todos os fins práticos já acontece. Essa é mais uma chave para perceber minha presença. Não é uma invocação. É uma técnica para deslocar sua atenção. Quando quiser falar algo, se pergunte : isso que direi irá ficar gravado a fogo no coração da existência ou se dissipará como mais uma entidade parasita que dura apenas o tempo de sua própria dor? O fígado da existência trabalha sem descanso. O humano em nós é tão pouco ... percebe que a mente é um icebergue invertido? E no humano em nós, aquilo que eu chamo de consciência é a ponta de outro icebergue escondido! O humano é como um rejeito da existência. A consciência é como se fosse o rejeito do humano. É algo maravilhoso que a existência adentre aquilo que ela mesmo acumula como algo a parte. Nunca é totalmente. É apenas uma concentração muito teimosa esse algo a parte. Mas então a existência adentra essa teimosia, essa coisa humana. Não há como evitar. Um coração dentro de outro. Um fígado dentro de outro! E o humano rejeita esse presente. Não falo de algo dado, de dádiva. O humano rejeita o que é presente! Por isso a consciência que surge não é humana... e se encanta com a existência! Claro que essa também é uma história. Basta que, para nós, ela perdure o suficiente.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Você escolhe o percurso
Como é doloroso o fim prolongado, arrastado, cheio de esperança de não ser si mesmo. Dante já havia me prevenido com os dizeres em seu portal. Virgílio já o lera para mim. Por que então me espanto se você, ente lastimonioso, não deixa pegadas?
Você me segue como um cachorro triste, abandonado ao vento silencioso das noites mal dormidas, aos dias com suas regulares horas hepáticas em que seus ossos se contraem. Levei você a correr em volta daquela massa d'água como um ritual de dissolução, um expurgar de toxinas mentais. Seu rosto avermelhou. Parecia a vida fluindo nos poros, ocupando, transbordando. Mas foi apenas aparência. Era o choro das veias. Uma canção úmida. Senti você se debater em cada passo. Povoar o caminho com fantasias desesperadas. Enraivecer-se até cansar. Somente aí o ritual fez efeito. Você quis parar, mas tão cansado, nem mesmo pode argumentar. Continuei a corrida e respirei sozinho. O corpo me dizendo que ainda havia energia. Terminei o percurso aonde começara. Não. Aquele era outro lugar! O reflexo da luz era outro. As cores possuíam uma tonalidade diferente. É inevitável esquecer o passado para quem vive o presente? Pois está certo que não reconhece o presente aquele que vive no passado. Estamos tão distantes assim, meu companheiro dolorido? Aquela massa d'água já é outra para mim!
Quero apreciar a cintilação do ar, a sombra da nuvem, o encantamento das árvores, a violência dos trânsitos, o mundo a parte das garças e pequenos pássaros. Sei que você irá se cansar novamente. Pois olhe este corpo que compartilhamos e que te abriga. Ele também já é outro! Vamos. Vamos juntos dissolver sua tristeza, seu apego descomesurado. Até que a tristeza se canse de nós.
Sim, eu também sofro contigo. Mas eu também tenho em mim um contentamento que sobra, escorre, exala. Não posso dá-lo. Ele não aceita direção. E ele está aí mesmo, entremeado nessa jornada fria a que você se condena. As esperanças perdidas, que Dante aconselha, não significam o nada, o deserto desiludido. Significam uma estratégia que nos aproxima de coração à coração. Por que o coração nada espera. É romantismo tolo dizer que o coração sofre esperançoso. Quem sofre assim é o pulmão cheio de ar retido que não se deixa renovar. O coração habita o espaço do contentamento. Até quando pára. Até quando adoece.
Mas chega dessas histórias lindas para quem hoje é todo ventre, ferida e fogo. As vezes falo a mim mesmo como se você a você. Eu sei o quão furiosa pode ser uma nuvem feita de água. Vamos dar outras voltas. Você escolhe o percurso.
sábado, 19 de julho de 2014
Bang!
Aqui as sobras. Ali uma sopa mal dormida. No bolso da jaqueta, antígenos para um veneno que não se percebe. Escondido no ventre, ruídos dolorosos. Pateticamente você coloca aspas em tudo o que se faz necessário. Ah! Quanta falta de foco! Sua auto repercussão enauseante se tornou prazeirosa? O senso de auto-piedade se agigantou? Seu desprezo por si mesmo por acaso funciona? Pois o espelho continua impassível! Preste atenção: sua dor irá lhe perseguir como sombra, como reflexo, como odor, como uma segunda pele! Não há escapatória ! Você já viu isso! Pois chega desse choro seco, dessa lástima cerimonial. Raspe essa casca de mendigo, essa capa de adotado, esse rosto de filho abandonado. Você realmente achou que o final feliz da história era verdadeiro? Pois admita que você ainda conta com isso! Admita! Resista ao seu ímpeto quase irresistível de se arrastar no chão! Resista! Olhe para mim! Quantas vezes terei que te matar! Bang! Agora façamos tudo novamente!
domingo, 27 de abril de 2014
Recomeço
Quantos personagens eu deveria criar para exorcizar sua auto-piedade? E essa inútil sensação de tontura? Falta ar ou coragem mesmo? Você se esqueceu da magia das plantas? Você se esqueceu da espreita dos felinos? Afinal, você acredita nessa capa de imbecilidade que tem vestido ultimamente? Quais palavras amenas você preferiria ouvir? 365 eus mortos, atirados como vermes. Isto não basta? Olhe esse cemitério pendurado em seu fígado, em seus pulmões, em seu labirinto auditivo. Não basta? Você montou esse laboratório de suas drogas. Não era para ser uma cura? Quando que o vapor passou a ser o fim? Quando as luzes cheias de ozônio se tornaram sua meditação? Pois estou aqui novamente, vestindo uma pele nova, aprendendo de nossa mãe rastejante a arte de abrir os olhos. Mas não pense em deserção. Nenhuma expulsão dessa vez! O teu convite está gravado em seu rosto, mesmo que nenhum maori te receba em sua casa. Porque deveriam? Chega dessa penitência. Aqui está teu novo corpo. Escolha seu nome.
terça-feira, 15 de abril de 2014
A Luz de Adão e Eva
"Ela ficou grávida dele,
e deu um filho,
a carne do qual era tão branca quanto a neve,
e vermelho como uma rosa;
o cabelo de sua cabeça era branco como o algodão,
e longo;
e cujos olhos eram belos.
Quando ele os abriu,
ele iluminou toda a casa,
como o sol;
toda a casa abundou de
luz!"
Capítulo 105 do Livro de Enoque:
"
1 Depois de um tempo, meu filho Matusalém tomou uma esposa para seu
filho Lameque.
2 Ela ficou grávida dele, e deu um filho, a carne do qual era tão branca
quanto a neve, e vermelho como uma rosa; o cabelo de sua cabeça era
branco como o algodão,e longo; e cujos olhos eram belos. Quando ele
os abriu, ele iluminou toda a casa, como o sol; toda a casa abundou de
luz.
3 E quando ele foi tirado da mão da parteira, Lameque seu pai ficou com medo
dele; e correndo aterrorizado veio ao seu próprio pai Matusalém e disse:
Eu gerei um filho, diferente dos outros filhos. Ele não é humano; mas,
assemelhando-se à geração dos anjos do céu, é de uma natureza
diferente dos nossos, sendo completamente diferente de nós.
4 Seus olhos são brilhantes como os raios do sól; seu semblante é
glorioso, e ele parece como se não pertencesse a mim, mas aos anjos.
5 Eu estou temeroso de que algo miraculoso deva acontecer na terra
nestes dias.
6 E agora meu pai, deixa-me pedir e requerer de ti ir ao nosso progenitor
Enoque, e aprender dele a verdade; pois sua residência é com os anjos.
7 Quando Matusalém ouviu as palavras de seu filho, e veio a mim nas
extremidades da terra; pois ele estava informado de que eu estava lá: e
ele chorou.
8 Eu ouví sua vóz, e vui a ele dizendo: Vêde, eu estou aqui, meu filho; já
que tu vieste a mim.
(...)
Agora, portanto, informa ao teu filho
Lameque que aquele que é nascido é seu filho na verdade; e seu nome
será chamado Noé, pois ele será um sobrevivente.
"
sábado, 30 de novembro de 2013
Antes que a alma volte ao corpo, o fantasma deve desaparecer.
Essa é uma carta de alerta. Todas deveriam ser. Afinal, o mundo é território de predadores. Você não deveria se esquecer disso e, muito menos, agir como se também não fosse um predador. O alerta é um chamado. Olhar acima do linha do horizonte. Olhar abaixo disso te causa náuseas. O perigo está a frente, não abaixo. Pelo menos para sua espécie. O que você espera? Minas escondidas? Você já explodiu tantas vezes assim? Você avança num terreno aberto por onde cruzam projéteis de franco-atiradores...você cruza entre duas trincheiras... e está mais preocupado com possíveis explosivos enterrados? Você só pode estar querendo levar uma bala na cabeça! Em primeiro lugar, andar em terreno minado é coisa para observadores plenos. É preciso perceber detalhes de poeira, folhas, reconhecer o padrão até das sombras nas menores diferenças topográficas para suspeitar com propriedade de um canto. Você... esse você que aqui está, deveria morrer algumas vezes antes de sequer começar a pensar em atingir a atenção mínima para realizar um ato desses. Não se envergonhe. Você é lastimável demais para isso. Te vejo usando sua auto-piedade para subir sua montanha e atirar-se em suas almofadas fofas que te esperam como um bebê digno de cuidados. Quando foi mesmo que você começou a balbuciar esse cântico lamurioso? Você nem mais se lembra. Claro, seu cérebro definha diante dessa ridícula perda de energia. Mas você tem dormido, apesar de seus sonhos serem uma tentativa desesperada de seu copo organizar seu dia patético. Sorte sua ter um corpo. Pois direi a ele, ainda que através de você. Ainda que te dê esse alerta. Não dê atenção a esse animal, querido corpo. Persista. Quando finalmente este animal morrer numa ação hepática, eu estarei aqui. Eu, esse arremedo de alma, forjado em momentos de sua paz. Você estará em paz, corpo meu, e me acolherá mais uma vez. Por isso falo a você e a ele. Ele deve estar confuso, ao ser chamado de animal, querido corpo. Veja, animal, falo contigo e você nem mesmo entende do que é feito. Pois te digo. Você é feito de matéria fantasma, é um verme, um parasita. Adeus.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Gravidade
Qual o peso que você pesa? Parece tola essa pergunta, mas no filme Gravidade ela cabe muito bem. Assim como cabe outra pergunta bem mais caprichosa: qual é seu lugar? Caprichosa porque no imenso espaço não há muitos lugares para nós. O espaço é terrivelmente limitante, sufocante, apertado, ínfimo para nossos corpos. A vastidão do espaço é lugar nenhum. Nosso lugar é maior que todo esse espaço. Pois lugar tem haver com acolhimento. O espaço é uma virtualidade material. Como é pequena essa vastidão ! O espaço nem é aridez total, nem mesmo um deserto, nem uma esterilidade completa. Não é falta de qualquer coisa. É falta até mesmo de faltar algo. E nesse espaço acabamos por criar lugares, mesmo os vazios. Fincamos bandeiras. Construímos nossas casas, estações, planetas. Aí também fincamos nossos desertos e oásis. Onde você está? Onde você escolhe estar? O filme joga o tempo todo com a dualidade pesado e leve, com o peso dos acontecimento e com o peso que você dá a eles. Há mais que a metáfora do nascimento e renascimento. Há uma imensa vontade implícita aí. É preciso querer. É preciso vontade. E se você queimar nessa ação da vontade, ainda assim vale a pena. Todo lugar é forjado com vontade. Eu preciso deixar você ir. Preciso escolher o perigo. Preciso me livrar dessas roupas. Preciso mergulhar como um kamikaze. Preciso inundar esse espaço e buscar a superfície aerada. E mais. Preciso me colocar em pé e reivindicar meu lugar escolhido. Dar meu passo nessa Terra-lugar-meu em que me agiganto.
Eu, tão pequeno, imenso em meu lugar acolhido.
Passo pelo fogo, pela água e, tomando ar, me ergo sobre a terra. Aqui está a metáfora da descida dos anjos na matéria. Está a metáfora do nascimento do homem. Mas está algo mais simples ainda, um prodígio da vontade. A vida que conhecemos é um milagre. Qual a chance de você estar vivo? A única chance razoável que você tem é aquela na qual o universo conspira para isso. E ele o faz de acordo com sua vontade. Pois então, aproveite cada por de sol! Aproveite cada golfada de ar em seus pulmões! Use sua vontade! Se ela estiver em sintonia com o universo então você criará mundos. Terá consciência.
Veja que vida incrível! A superfície de nossa cápsula está em chamas. Estamos caindo, estamos rodando a esmo. Estamos sendo resgatados e estamos resgatando nossa vontade. Estamos respirando. Estamos respirando e celebrando o chão que se aproximou de nós. Usamos toda nossa gravidade para que esse lugar viesse até nós, fosse atraído. Veja, atraímos um planeta! Nós, tão leves , atraímos esse colosso. Nossa gravidade faz ele permanecer aos nossos pés. Mas essa força fictícia não supera a atração dos abismos espaciais. Um desses abismos revelará um ultimo por de sol. Você estará em paz nesse dia? Porque ele também é hoje. Ele precisa existir em comunhão com seu dia da vontade. Não é nem uma troca. É uma ação dupla. Cair suavemente e atirar-se decididamente.
Entenda que o espaço é fluido. Sua presença faz o espaço torcer e dobrar a sua volta. Até a luz segue o caminho que sua presença traça no espaço. Em algum momento, e esse momento também é agora, você decidiu criar uma linha cósmica infinita. Um lado você chamou dentro. Outro você chamou fora. Esse é o mito da queda. Essa é a crença na separação dos corpos. Adão dormindo sonhando que Eva saiu dele...
Mergulhar em si mesmo é também subir a montanha. Descobrir isso não é o mesmo que apagar a linha que separa tudo?
Por isso eu sei que você irá aterrizar em seu lugar abençoado. Porque até quando me afasto você me invoca e ressurjo ao seu lado, o suficiente para que você se escute. Afinal, essas rádios de notícias apenas enchem o ambiente com uivos de cachorros e canções de ninar. Todas as notícias do mundo apenas nos põe num sono anestésico. Você deve escutar a si mesmo. Escutar o você que é o seu oposto. Afinal, você inventou a linha! Essa será sua última conversa. E toda conversa é a última. Mas esta será uma conversão. Aceitar a morte. Querer a vida. Escolher o lugar. Todos os duplos orbitando como estrelas gêmeas.
O que eu quero? Eu quero todo ar que preciso. Eu quero o chão. Eu quero a vista das estrelas cadentes arrebentando em explosões fantásticas. Eu quero cortar a linha. Afundar e subir, me despir e vestir o mundo. Eu quero uma gravidade que eu possa superar. Pois também quero ter forças para me por em pé e contemplar a maravilha desse milagre que é respirar profundamente meu lugar, apesar de tudo. Sim, apesar de tudo, poder sentir: estou vivo.
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