quinta-feira, 12 de março de 2015

As coisas

"Amo a liberdade, por isso deixo as coisas que amo livres. Se elas voltarem é porque as conquistei. Se não voltarem é porque nunca as possuí."
(Frase atribuída a Lennon e a Marley.   Não me importa!  )

Nunca possuímos nada.  As coisas é que nos possuem.  


Quais são as coisas que me possuem?  As coisas que se escrevem por mim.  As tristezas que me fazem triste. As alegrias que me fazem alegre.

Estranhas são as saudades do que não vivi... As coisas.

Poi... elas não estão vivas em si mesmas. São armadilhas da vida. Me capturam e acontecem. Então acontece de eu estar de uma forma ou de outra. São coisas.

Mas não se escondem feito terreno minado. Não sei se as coisas sabem que eu existo...

Acaba sendo um pensamento curioso esse.   

Não. Eu sei. As coisas não sabem que eu existo! Quando sabem, deixam de ser coisas: são eu.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Resiliência ( Impressões sobre o filme Um Santo Vizinho)

Oliver xinga e parte em direção ao valentão da escola e lhe quebra o nariz.  Quase pulei da cadeira. Aplaudi.  Depois ele ficam amigos, o que foi ótimo também.  Mas aquele momento foi uma catarse que pontuou a história.  Vincent o ensinara a ser eficiente.  Afinal, um tapinha de nada resolve uma briga.  A raiva precisa ser canalizada de baixo para cima como um fluxo no caminho de menor resistência.  Eu venho de baixo e vou te arrebentar no topo de sua soberba!  Agora permaneça no chão!  Obrigado Vincent, você me ensinou a ser eficaz.  É nas entranhas que concentro minha fúria e ela explode procurando o céu, arvorando, feito árvore, sempre mais velha que eu mesmo.  Quais são as possibilidades de ganhar?  Ganhar qualquer coisa, não importa o quê...  Oitocentos para um?  É esse que quero.  Aposto tudo, tudo o que tenho.  Dez ou dez mil, tanto faz.  Pois não se trata nem do resultado.  É uma postura de vida.  A única aposta que vale a pena é a de maior risco!  Você é o resultado de uma aposta que a vida faz.  Pense: quais as chances?  Você quebra e quebra novamente. O que te mantém em pé?  Chamem de persistência, de teimosia, de superação, de sobrevivência, de resiliência...  eu chamo de consciência: cola que unifica o esfacelado.  Eu chamo de presença: essa alma que fala comigo durante a tempestade.  Lembra o garoto que Oliver nocauteou?  Agora ele lhe dá carona na bicicleta.  Pois só queremos uma mão estendida.  Alguém que fique ao lado.  E isso porque adotamos e somos adotados.  Porque bombas incendiárias caem no campo que você passava a tarde e o que resta é desolação e bravura.  Porque você esquece de si mesmo, mas em surtos de memória você reconstrói magicamente o presente apara além do tempo memorável.  Porque seu cérebro sangra, o álcool te anestesia, a fumaça te acalma, mas ainda assim você continua adotando e sendo adotado, cuidando e sendo cuidado.  Só precisamos de alguém ao lado.  Esse nunca é espectador apenas.  É alguém que te empresta ar quando o seu acaba.  Também é alguém que renova o seu quando ele te asfixia .  Por isso não importa sua crença ou a falta dela.  Fé sempre é confiança, apesar de deus ou da sua ausência.  Confiar  na aposta mais alta, nesse filho que não importa de quem seja, nesse velho cuidador que é tão triste.  Havia aprendido que santo é sinônimo de saudável.  Mas a vida não distingue santos e doentes.  Doente e santos somos todos.  Entenda: sempre que você chorar ao meu lado, irei segurar sua mão.  Mas o significado é apenas este: o de um ato de vida.  Nenhuma medalha será entregue, nem um título de santidade, a não ser o do filme, título  que só vale entre nós dois.  E nunca somos dois quando estamos juntos, por mais difícil que seja perceber as interseções nos círculos.  Então Vincent na última cena do filme rega um vaso com uma planta ou pequena árvore ressecada.  Ele a encharca.   Depois rega o chão de areia seca como se brincasse com a mangueira d´água. Finalmente rega os próprios pés ainda com meias e chinelos.  Ali, ainda na sala do cinema pensei que aquilo fosse uma livre interpretação do ator, um improviso.  Então me vi sorrindo diante do óbvio.  Você rega a árvore, ainda que seca, pois floresce.  Você rega o chão, ainda que de terra, pois verdeja.  Vincent, vencedor. Sim, você rega os próprios pés.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Um último riso antes do sono

Eu caí dentro de mim.  Foi isso o que aconteceu.  Não um mergulho, como quem decide se atirar. Mas uma queda.  Uma descida.  Um encontro mais abaixo.  Uma descoberta de profundidade, e eu nem sabia que ela existia assim, tão perto, tão encontrável.  Uma dimensão solitária.  Não sei como chamá-la de espaço.  Lugar?  Me vem como um brotejamento, só que para dentro.  Então minha pele arrepia e eu fico sabendo que a tristeza disfarçada de piadas diárias vem cobrar sua conta.  Eu fico sabendo.  O ar de tudo que não digo por medo de seu olhar distante, ou pior, de piedade e pena, corrói como gás invisível.  Por que não abro as janelas e deixo tudo sair?  Ou será que tudo retorna quando chego perto?  Eu nunca pude ir para longe.  O outro lado do mundo é só mais uma esquina.  Mas eu preciso tanto falar para me ouvir dizendo!  Eu fico repetindo e repetindo que vai passar, que é possível, mas a verdade é que eu morri.  Eu morri.  Foi de susto.  Ficou uma tristeza fria me velando. Pode parecer que falo sozinho.  Sim, falo.  Me tornei médico de minha doença imaginada.  O remédio é uma bruxaria.  Uma foto, um almoço, uma música, uma frase.  Uma catação de coisas.  Nada.  A temperatura não se altera.  A febre escondida persiste.  O alento vem de esquecer que se lembra. Hoje é um dia em que estou mais irreal que de costume.  Graus de irrealidade.  A que ponto cheguei!  Um último riso antes do sono...

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O voo e o canto da fênix



Fênix.  Engraçado eu escrever sobre isso.  Estou a tanto tempo a volta com símbolos, imagens, evangelhos desconhecidos da maioria, que me esqueço que tal dimensão não é óbvia.  A fênix é um pássaro que renasce das próprias cinzas.  Eu costumava ouvir a história de João batizando Jesus e dizendo “eu devo diminuir e Ele deve crescer”, como a metáfora do “eu “ que deve entregar seu posto de comando para a “alma”, melhor dizendo, para a “nova alma”.  Ah! adorei ver a fênix em Harry Potter...  Que lindo símbolo do renascimento!  Mas então, o que realmente queima?  O que se torna cinzas?  Não poderia ser a Luz.  Ao me deparar com isso, percebi que a Luz também cria matéria!  Um amigo me disse que estamos a pelo menos oitenta anos tentando realizar isso em laboratório e que ano passado chegamos finalmente numa possibilidade real de conseguir tal feito.  Mas eu não pensava em algo reproduzível em laboratório.  Eu pensava em algo na forja de meu coração!  Sim, neste capaz de emitir um feixe de luz estrelar da mesma forma que uma supernova.   Mas preciso dizer algo: minha fênix é sempre dupla.  Uma fênix feita de luz que habita uma outra fênix feita de matéria.   Um truque de mágica, percebe?  Parece que ela renasce, mas a luz sempre está nas cinzas.  Uma magia escondida ao alcance e diante da visão de todos.  Um batismo invertido, pois a matéria batizar a Luz, como conta a história que lembrei antes, é sempre algo inesperado.  A Luz mergulha nas águas de nossa existência.  Porém é mais do que isso: mergulha em nós!  Já nesse ponto quem é que cria quem mesmo?  Matéria criando Luz e Luz criando matéria.  Perceba, diminuir aqui, querido João, é apenas deixar a cena, confiar.  Aumentar aqui, querido irmão ou irmã, significa fluir em liberdade, em contentamento.  Entre ambos há o que pode passar despercebido: o compartilhar o voo e o canto da fênix.  Ou simplesmente: vida.


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Desejo de morte

Você me acompanha nesse texto?  Assim: como se fosse um outro eu, antecipando as palavras, reimaginando-me, atravessando o tempo, ocupando o mesmo espaço psíquico... Me acompanha?

O desejo de morte, o da morte própria, do acabar-se, é um desejo por si mesmo ou é a reação a um descontentamento? Entende a pergunta? O desejo de morte, de acabar-se, é genuíno e existe mesmo em meio ao contentamento da vida, ou é uma reação ao cansaço, à tristeza, uma expressão da melancolia?  Pense nos momentos de tristeza em que esse desejo poderia surgir: ele realmente nasce ou simplesmente se torna evidente, pois, de fato, sempre teria existido?  Isso me leva ao seguinte questionamento: “desejo de morte”, sem motivo, sem descontentamento que o justifique, existe?  Eu sei que se pode argumentar que o que estou apontando muito se parece com a angústia, aquele estado de espírito sem explicação, ainda que feito de carne e sangue humanos… ou mesmo de alma.  Mas não se trata disso. As angústia... não aponta para nenhum lugar. O desejo de morte sim . É um desejo que sabe o que quer. E antes que eu responda o que é isso que esse desejo quer, e prometo responder até o final dessa reflexão, me pergunto: “desejo de morte” é matéria fundamental do corpo?  Faz parte do ar nos pulmões?  Está na água em que vivem as células? Compõe a química do sangue, a eletricidade nos nervos, o calor nos músculos, o tutano dos ossos?  Me fiz entender?  Afinal: nascemos assim? O “desejo de morte” é natural em nós, nos compõe, é indissociável da matéria da qual somos feitos? E esse desejo também compõe aquela matéria sutil que poderíamos chamar de matéria psíquica, aquela que forma o que entendemos como nós mesmos? Confesso que apesar de achar que sim, que o desejo de morte é parte constituinte de nós mesmos, tenho cá minhas dúvidas, pois quando estou contente nem mesmo lembro que estou vivo.  Meu contentamento é desse tipo,  e desconfio que seja assim com todo mundo.  É apenas quando estou triste que penso nesse assunto. Mas, ainda assim, acredito que a resposta seja um sim, que tal desejo seja atávico, ancestral, não localizável, e tal como a mente, ao mesmo tempo produto de atividades químicas e impulsionador dessas mesmas atividades. Como um ouroboro, aquela cobra que come seu o próprio rabo formando um símbolo onde início e fim, causa e efeito se tornam questões sem sentido, o desejo de morte deve ser criador de si mesmo. Mas veja que interessante: quando estou contente nem mesmo lembro que estou vivo. A tristeza, por outro lado, diminui os espaços, delimita os tempos, os dentros e os foras de qualquer coisa, os hojes e os amanhãs. E é na tristeza, com todos esses limites, que penso sobre isso, que reflito e crio estas palavras.  Porque acredito que a tristeza mesma também deseja não ser triste.  E quando isso acontece? Quando a tristeza some?  Faça esse teste, esse exercício: a tristeza termina quando ela finalmente se aceita.   Ela virá novamente, provavelmente de outra forma, pois é muito difícil que nos aceitemos de forma absolutamente completa e, ainda que o façamos, estamos sempre mudando e acrescentando e descobrindo coisas novas sobre nós mesmos. Mas então faça o teste. A tristeza que se aceita, termina.  Será isso que faço aqui com essa investigação sobre o “desejo de morte”?  Estarei em meio ao processo de aceitação que leva ao fim de minha tristeza, ou dessa que agora sinto?  Assim, novamente: essa reflexão seria um efeito colateral desse processo?  Vou fazer uma pequena pausa, pois pode até parecer que eu esteja desviando ou voltando atrás ciclicamente na questão. Continuemos juntos. Falta pouco.  Já vou pincelar os últimos traços dessa reflexão.  Vejamos: a morte é um conceito. Claro que sabemos o que é a morte.  Mas não sabemos por experiência, a priori, de antemão, o que é morrer. Isso é óbvio, apesar de não nada simples. Porque se não sei por experiência própria o que algo é, então esse algo é um conceito, uma descrição. E me diga, se não fosse por medo, você não iria até lá para ver como é?  Viu a guinada que demos aqui? Não? Eu vou repetir para que essa guinada esteja clara: a morte é um conceito simplesmente porque nenhum de nós sabe por experiência própria o que ela seja. E aqui vem a guinada, acompanhe coi cuidado: se não fosse por medo, por medo da morte, você não iria até lá para ver como é?  Entende agora? Não há nada de mórbido nesse desejo. Percebe? Não há nada de mórbido nesse desejo.  Não é nenhum desejo de não viver.  É o contrário.  É o desejo de viver tudo, inclusive o fim.  Eu queria investigar se ele existia por si mesmo. Pois seria fácil assumir que se tratava de um efeito colateral. Você, que me acompanhou até aqui, pode não concordar comigo, mas pôde entender o caminho que tomei, e espero que esta reflexão lhe incentive a fazer o mesmo. O desejo de morte, como eu  o entendo, (lembra que fiquei de dizer o que ele quer?) é um desejo vital, faz parte da vida até mesmo em pleno contentamento. É desejo de experimentar, de ser mais, de viver mais, viver tanto que quer viver… sim, quer viver até mesmo o acabar.  É desejo de desfrutar até mesmo a última gota aonde o universo inteiro deve está concentrado.  Sabe aquele destilado demorado, aquela explosão concentrada que toma por completo os sentidos?  Ah! essa última gota deve ser algo assim. Mas, por outro lado, afinal posso estar enganado,  o desejo de morte poderia ser apenas uma expressão racional de uma perspectiva limitada.  Deixe-me voltar à imagem que criei daquela gota concentrada de vida, aonde a plenitude se manifesta, para explicar isso. No contentamento, quando desfruto de um contentamento, eu talvez já esteja provando esta gota mística.  A plenitude sem limites que a possam calcular.  Talvez seja simples assim, uma experiência  plena que, por isso mesmo, não se perceba a si mesma sendo plena. Aí não há distanciamentos.  Já na tristeza, por outro lado, se  ganha uma perspectiva limitada, se ganha esse olhar racional, distanciado, que pode  inclusive criar um conceito que chamo de “desejo de morte”. Percebeu a sutileza aqui?  Eu entendo que esse desejo é parte constituinte da propria vida, mas é apenas quando me diminuo, quando me limito, quando estou triste, quando vivo menos, que reflito sobre isso.  Ele também fica mais evidente quando aceito minha tristeza.  Mas eu preciso dizer algo: acho que quando estou contente, estou morrendo sem me dar conta disso, porque estou muito ocupado em viver.  Sei que parece até aquelas frases bonitinhas que se trocam nas redes sociais, apesar dela caber como uma luva aqui, não é mesmo?  Tudo bem. Vou trocar mais uma com você:  eu sou feito de perspectivas diversas, de ânimos contraditórios e de uma sensação de estranhamento no mundo. Isto dito assim, não significa nada. Mas deve ser assim com muita gente.  Você se identifica?  Mas então, voltando: essa investigação me levou a essa frase que chamei de bonitinha. Vou dizê-la novamente:  acho que quando estou contente, estou morrendo sem me dar conta disso, porque estou muito ocupado em viver.  Então cabe a pergunta: o que estou fazendo aqui agora?  Fácil: desfrutando menos, vivendo menos, claro!  O desejo de morte é ao mesmo tempo um chamado do tipo: vamos...viva mais! e uma sacudida nos ossos, um desconforto que te faz sair do frio. Quem diria, não?  De tudo que refleti até agora, chego finalmente a isso: o desejo de morte é a vida mesma desejando ser mais!  Afinal, quem aguenta essa vidinha ordinária do dia a dia? A vida quer mais, quer plenitude. Se o desejo de morte não fosse parte integrante em nós, então desconfio que ainda estaríamos escondidos em cavernas. Mas não é isso mesmo? Não é esse desejo que nós lança para fora das cavernas que entramos dia após dia?  Ou você acha que os ambientes em que transitamos não são cavernas?  Eu tenho certeza. Até mesmo pela sensação de segurança que eles me dão. Mas essa é outra conversa. Vamos falar disso na próxima vez?

Um abraço, e obrigado pela companhia.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Aliança

Aliança
Possuo um adorno no dedo. Uma aliança com quase a metade da minha idade. Ela não é feita só de metal. Ela é feita de tudo que eu admirava, feita de dedicação, de dor, de sangue, de sonhos realizados e de sonhos perdidos. Não é um adorno apenas. Ela é eu também. Mais do que eu imaginava. 
Ela é feita da minha teimosa tentativa de encontrar sentido na vida. Feita de meu apego a uma imortalidade impossível. Ela é feita do pedaço mais enraizado de meu ego. 
Se eu cortasse meu dedo fora, ela ainda estaria comigo. Nem mesmo isso  é possível. 
Deixá-la não é apenas tirar um anel. É ser capaz de aceitar minha própria irrealidade.  Aceitar minha personalidade como um instante insignificante no mundo. É ser capaz de atravessar essa mente que produz tristeza como quem diz: encha essa taça que beberei até a ultima gota!
Mas ao fazer isso, e sei que tenho que fazê-lo sozinho, olho pela janela de minha cápsula e imagino o impossível: que você poderia estar segurando minha mão... Ah! mas ninguém morre acompanhado. Essa é uma viagem que todos realizam sozinhos!
Mas êis que reúno coragem e enfrento a situação em que me encontro. Veja: a cada pedaço meu que desmorona, descubro uma raiz que não sabia existir! É como se eu tivesse ficado muito tempo ocupado, numa outra vida impossível, plantando essas sementes, as regando para ainda sobrar essas partes novas que eu não sabia existirem. Ou então eu devo ser feito de seiva e celulose auto-regenerativa... 
A pergunta me vem, velha, ainda que numa forma nova: quem é esse que ocupa as ruínas frescas de minha tristeza?  Quem é este tão calmo, tranquilo, ainda que entremeado nas lágrimas de meus olhos? 
Você esquece o anel neste momento. Nenhuma diferença faz usá-lo ou não. Como uma tatuagem por presença, se o mantém, ou por ausência, se o retira, tudo nele é passado se voce não o resignifica.   Seja como for... é preciso refletir. 
O que ele lhe mostra, lhe ensina neste momento? O que você vê neste espelho? O que está permeando essa aliança que a torna símbolo tão afetivo?  É o medo da solidão, do deserto?  É a promessa  do rei messiânico impregnada em seu sangue? Não. Nem medo nem esperança.  É você diante do desaparecimento. Você diante do pedaço mais resistente, da pedra sustentadora. É você diante do abismo se prendendo ao conhecido.  Você diante de uma capa protetora.  Mas também é você diante do que admira em si mesmo...sim, diante do que ainda admira!  É um feitiço. Um encantamento.  Uma expiação de culpa. Uma marca de heresia.  Um corte de pulsos.  Uma anomalia cerebral.   
E é sim medo e esperança! O passado remoendo suas veias. Um tributo à sua imagem esculpida.  Um acerto de contas moral.  Uma peregrinação por respostas sem perguntas. 
Tudo isso é visto nesse espelho diante daquela presença que te acompanha, mas que agora permanece calada. E desse silêncio vem uma resposta: quando não mais lembrar que ainda se usa o anel... este será o momento em que poderá ser tirado. Pois só neste momento pode-se verdadeiramente dizer: tanto faz! 

Quero esquecer porque o uso. Livrar-me das explicações e justificativas de uma mente que não se deixa vencer.  
Pois andarei em meio aos batalhões de mim mesmo, e o lançarei ao fogo, onde eu mesmo deixarei de existir!

domingo, 3 de agosto de 2014

O não vivido

Desejo viver minha tristeza até que nada sobre. Mas parece que a tristeza é como a alegria, fluxo que não acaba. Devo simplesmente aceitar este inferno eterno. Pois quem sofre, enquanto sofre, sofre eternamente. Assim como o céu que é eterno enquanto deleita.  O poeta músico entendeu isso e contou para todos.  Afinal, tudo acaba e, enquanto dura, durar é para sempre.  

Quanto dura o lamentoso acabar de algo precisoso, o não aceitar o presente num desejo conflituoso, o arrependimento daquilo que não se foi capaz de fazer?  Quanto dura essa inquietação nervosa, esse soluço dolorido, esse aperto de ar contido,  essa fonte de lágrimas ?  E se eu jogar uma moeda e fizer como os românticos?  Quem estaria ali quando eu abrisse os olhos?  

Por que me acostumei com aqueles passos raivosos, aquela impaciência declarada, aquele olhar distante, aquele aperto de mãos relutante? Por que me vendi por um sonho à dois e inventei-me metade de mim na esperança de encontrar mais que outro eu ao meu lado?  A resposta, tão simples, ainda não encontra porto aberto. Quanto tempo mais como um porto fechado a este navio com suas novidades temidas?

  
Quando se morre, leva-se a vida não vivida. Agora sei. Ela reclama sua existência como um felino assustado. A vida não vivida arranha, contorce, arrepia.  Gás que se esparge, escapa da contenção.  Vida não vivida mata mais depois da morte do que antes!  Coloque a mão nesse saco de negligências. Estou tão cheio dessa vida não vivida que até o irreal se tornou palpável. E sou todo irreal. 

Você me disse que eu deveria escolher viver.  Mas como morre aquilo que ainda não viveu?  Sim, claro!  Sou eu que dou forma. Sou eu que crio propósito. Sou eu que alimento o nada. Informação continua. Matéria sem massa. Seguirei seu conselho. Mas não se trata exatamente de escolher a vida. O que se escolhe é a não vida.  A vida viceja sem escolha. A vida não é o que adentra a forma como se poderia dizer.  Seguir seu conselho impossível é, ao mesmo tempo, não segui-lo. Que seja!